Conversa com o Fatos&Points: a arte de Frank Menezes

OPÇÃO 01 CRÉDITO - DIVULGAÇÃO TV GLOBO(2)“Talento” é a palavra que descreve o ator Frank Menezes. Com 32 anos de carreira, o ator baiano tem em seu currículo de tudo um pouco: 28 espetáculos, 17 experiências na TV entre novelas, seriados, minissérie e especiais, e 5 longas metragens.

Ele é versátil, um exemplo é a comédia policial ‘Quem Matou Maria Helena?’, ao qual, Frank consegue viver múltiplos personagens em uma peça só. Outros espetáculos também fizeram a história do ator como o monólogo ‘O Indignado’, ‘Vixe Maria, Deus e o Diabo na Bahia’. Entretanto “a montagem que mais marcou a minha carreira foi ‘A Bofetada’ (1988, 1992 e 1999)”, ressalta Frank.  

Na TV e no cinema se destacou em ‘O Compadre de Ogum (1994)’, ‘Tieta’ (1996), ‘Dona Flor e seus dois maridos’(1998), ‘Quincas Berro D’Água’ (2010), ‘Astro’(2011), ‘Gabriela’(2012), ‘O canto da sereia’(2013), entre tantos outros trabalhos. Confira essa conversa aqui no Fatos&Points.

F&P- Como Frank se descobriu ator?

Frank Menezes – Não sei se foi uma “descoberta”, pois vim de uma família de músicos eruditos que me ensinou a consumir cultura. Fui educado a ir a museus, teatros, exposições, música de câmara, ópera, ballet, portanto, ser ator acabou sendo uma coisa muito natural. Na verdade, entrei na faculdade com 17 anos, fiz Licenciatura em Educação Artística com Habilitação em Desenho, na Universidade Católica do Salvador. Lá, tive contato com o academicismo de todas as áreas artísticas e, claro, com artes cênicas, que me fez pensar muito na vida e na arte. Fiz contiguamente o Curso Livre de Teatro do TCA (Teatro Castro Alves) e daí segui construindo a minha carreira.

F&P- Teatro, Cinema ou TV, qual área Frank se identifica mais?

FM- Hoje já não sei mais, pois cada uma das três áreas me dá um prazer enorme e diferente. No Teatro a resposta é imediata e isso é único, inigualável. Na TV o alcance de público é incrível e o seu trabalho acaba tendo uma outra dimensão, assim como o Cinema que te leva para o mundo todo. No Cinema atualmente, o trabalho é feito para se ter uma uniformidade de interpretação, também sendo muito sedutor. Enfim, não se dá mais para escolher por identificação.

F&P- Quais foram os principais desafios para aquele rapaz tímido que gaguejava ao começar o curso de Teatro?

FM- Não me lembro! (risos) Sendo muito sincero, não me lembro de desafios, acho que pulei todos. O prazer que sinto em fazer o que quero me impulsiona de tal maneira que transponho qualquer desafio. Até a gagueira!

F&P- Relembre como foi ler “Mar Morto” de Jorge Amado e o processo de imaginar cada cena.

FM- Nossa, que difícil… Primeiro porque a memória vai falhar, e segundo, talvez fizesse tudo diferente. A lembrança mais clara que tenho é daqueles personagens que estão ali no livro, pois eles estão em nossa vida e na nossa memória viva. Por mais que a contemporaneidade avance e tente tortamente se desenvolver/desenrolar àquelas “pessoas” estão aqui e pertinho de nós.

F&P- Como foi a primeira experiência em cena?

FM- A primeira, primeira mesmo, foi no primeiro ano do primário quando fiz o Romeu de “Romeu e Julieta” de Shakespeare, em uma adaptação minha para uma aula de português. Na época uma professora sugeriu que fizéssemos uma encenação para falar de Confusão. (risos) Além de ter uma família bem estruturada culturalmente, fui colocado em uma escola excelente, que não existe mais, a Nossa Senhora da Guia, na Boa Viagem, onde na década de 1960 era um bairro atraente, cativante. Porém, a minha primeira vez em cena, profissionalmente, foi no resultado do Curso Livre de Teatro do TCA. Este curso tinha uma repercussão enorme na época e para mim foi adorável, foi uma experiência incrível que me deixou felicíssimo e esta alegria carrego até hoje.

F&P- Frank tem um sonho teatral que ainda não realizou?

FM- Sonho? Não, pois já realizei que é viver da minha arte, minha profissão, meu ofício. Mas planos tenho muitos e tomara que eu consiga realizá-los, como por exemplo, fazer Ricardo III de Willian Shakespeare.

F&P- Como é viver de Teatro? Quais são as dificuldades?

FM- É dificílimo, porque precisa-se ter muito planejamento para equilibrar as contas com a instabilidade da profissão. As dificuldades são muitas, mas acredito que a maior de todas é o preconceito que existe de forma arraigada e pior ainda por pura ignorância preguiçosa, pois tenho certeza que existe uma quantidade enorme de pessoas que prefere não gostar de algo, do conhecer este “algo”. É muito mais fácil viver dizendo que não gosta de uma coisa do que querer estudar aquilo, conhecer; é horrível isso, é quase nojento, mas, infelizmente é a verdade. Existe uma série de pessoas que dizem: “ah, eu não gosto de teatro”, e nunca foram, pior ainda é quando estas mesmas dizem: “ah, o teatro na Bahia é muito ruim, é fraco, né?”, e NUNCA foram. Isso é o atraso da humanidade, a preguiça do conhecimento, a ignorância, e infelizmente, isso é bem presente aqui, em nossa Salvador.

F&P- Conte-nos a sua experiência com “A Bofetada”, saudades dos tempos de patife?

FM- Foram quatro anos riquíssimos, pois viajamos pelo país inteiro levando um humor diferente, sem medo de ser ridículo, com um entusiasmo cênico raro e sem culpa do riso. As saudades já deram lugar para o orgulho de ter feito parte de um momento único da história do Teatro Nacional, pois ‘A Bofetada’ não é mais só Baiana, é Brasileira!

F&P- Como o senhor vê o teatro na Bahia atualmente e como o projeta para o futuro?

FM- Atualmente estamos passando uma dificuldade nacional, depois da Queda das Bolsas de 2008, o Brasil se ‘salvou’ porque a equipe econômica do governo abriu crédito para tudo e todos e incutiu na cabeça dos brasileiros que eles estavam ‘podendo’ e deviam comprar. Isso fez com que a população se enchesse de carnês, e hoje os brasileiros além de terem às dívidas básicas de sobrevivência (casa, aluguel, saúde, alimentação, água, luz, telefone, etc), eles/nós têm que pagar o carnê do carro (e as despesas dele), o carnê da linha branca (geladeira, fogão, máquina de lavar) e o da linha preta (TV…). (risos) Estamos endividados com nós mesmos, então o que temos que cortar? O que não é obrigado a consumir: entretenimento (teatro, música, shows), esporte, e até o dízimo esta caindo. Isso tudo é dito por alguns economistas em que pesquiso por conta do meu trabalho. Fora isso, o público de teatro é fiel, aqui em Salvador 10% da população frequenta teatro e exposições, isso são 300 mil pessoas. É uma quantidade grande e poderia ser mais, mas aí entra aquela preguiça preconceituosa. Mas uma cidade como esta, acho que tem um futuro bom pela frente, pois somos muitos e espero que a mentalidade de outros vários faça o futuro mudar de bom para brilhante. E tem uma coisinha que muitos não sabem: Salvador tem um Teatro respeitadíssimo fora do país. Existem vários espetáculos que são convidados para festivais internacionais, não só por saberem da nossa competência histórica, como também pelo interesse de quererem saber o que estamos produzindo. ‘O Sapato do meu Tio’ é um grande exemplo recente, ele já se apresentou na República Dominicana, Guiana Francesa, Edimburgo, Avion, e agora o espetáculo vai para Taiwan sempre representando o Brasil, não só a Bahia.

F&P- E como analisa a relação entre espetáculos/espectadores em Salvador?

FM- Existe uma variação muito grande que não dá para analisar numa resposta só. Em uma cidade tão grande como Salvador existem públicos de todos os gostos, apesar do público ser de uma esfera menor, mas temos públicos mais exigentes, populares, sazonais e aqueles que só assistem espetáculos que vêm de fora com aquele ator que fez a novela do momento. (risos) Salvador é uma cidade que, infelizmente, está com a autoestima muito baixa e dá a impressão que gostam mesmo de frequentar o que vem de fora, por achar que o que se produz aqui não tem tanto valor.

F&P- Deixe uma mensagem para nosso jornal.

FM- Espero que o nosso caro leitor tenha o amor que tenho por esta cidade que está precisando ser acarinhada. Então, quero fazer um convite para curtir o diferente e ir conferir o que temos de brilhante em nossas ruas, praças, teatros e museus, e ainda não conhecem. Vão assistir nós artistas, somos um dos grandes celeiros culturais do mundo. Sim, do mundo! E isso me orgulha tanto, por isso ainda moro aqui. Gostaria muito de resgatar o que de melhor produzimos durante anos, para que as novas gerações vissem e sentissem o mesmo orgulho que tenho. Para começar, vão conhecer A Casa do Rio Vermelho, a instalação/museu feita por Gringo Cardia, as obras de Jorge Amado e Zélia Gatai, tenho certeza que vocês irão se surpreender. O que foi feito lá só vi igual em São Paulo, Paris e Nova York. Muito Obrigado!

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